• Pronto. Chegou o dia dos balanços. O dia em que quase toda a gente é tomada por uma necessidade (por vezes masoquista) de rever o ano que está prestes a acabar. Há sempre uma série de arrependimentos, uma dose de autocomiseração e uma certa vaidade por eventuais conquistas.

    Há casamentos, nascimentos e promoções. Há divórcios, lutos e desemprego. Tudo isto misturado, tudo isto a acontecer com a mesma pessoa, com a mesma família ou comunidade. E depois, há ainda as já clássicas reportagens sobre o melhor e o pior do ano, que só nos fazem sentir mais insignificantes perante os grandiosos acontecimentos. Qual foi a minha contribuição para a Humanidade? Como posso queixar-me seja do que for perante as imagens da Síria? Como posso vangloriar-me de pequenos feitos perante tudo o que fez Mandela?

    Mas posso. Podemos todos. Porque somos humanos. Porque embora tenhamos a sorte de não ter nascido numa zona de guerra, também temos as nossas pequenas tragédias. Porque os nossos actos podem não mudar o mundo, mas mudam o mundo de alguém. Porque apesar de poucos ficarem na História, todos fazemos parte dela, com os nossos dias nada emocionantes, as nossas rotinas nada inspiradoras e os nossos desejos apenas mundanos. E se o melhor que fizemos no ano que acaba foi ajudar uma velhinha a atravessar a estrada, não nos sintamos menos dignos. Amanhã poderemos começar de novo. E depois de amanhã. E a qualquer momento da nossa vida.

    Álvaro de Campos escreveu que «O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.» Mas se não sonharmos, o que nos resta?

    Vamos então sonhar um 2014 como nos apetecer, em que sejamos heróis para quem nos é querido, geniais numa actividade qualquer (mesmo que seja a resolver palavras cruzadas) ou em que sejamos apenas nós próprios, com todas as nossas falhas. Para uns, serão sonhos altruístas como a paz no mundo, a saúde eterna e a cura do cancro. Para outros, um carro novo, um amante ou uma mala Chanel. Não importa a dimensão ou a futilidade dos mesmos, porque enquanto pudermos mandar nos nossos sonhos seremos livres. Mesmo nos dias mais escuros. Mesmo num país pequenino.

    ©Steve Simpson
  • Esta não é uma noite como as outras. Mais não seja por conter em si a esperança e as promessas de que vai ser especial. É tempo de perdão, de amor, de esquecer as diferenças. No entanto, todos os anos, década após década, observo as mesmas angústias, as mesmas mentiras, as mesmas histórias. Vejo os filhos repetirem os erros dos pais. Vejo os netos a rir com as mesmas brincadeiras que fizeram rir os seus avós. Só muda o tempo, esse que por mim passa tão devagar.


    Sete da tarde.

    O ar começa a cheirar a filhoses e lenha.

    A rapariga loura limpa as lágrimas e retoca a maquilhagem ao espelho do carro, enquanto o rapaz retira alguns sacos do porta-bagagens. Sem lhe dizer uma palavra, fica à espera que ela decida sair, pegue no bebé, que dorme no banco de trás, e o siga até à porta número sete. Não a via com uns olhos tão tristes desde que os seus cabelos estavam presos em tranças, os joelhos esfolados debaixo do vestido e o cão definitivamente imóvel no seu colo.

    À janela do quarto esquerdo, uma mulher espreita ansiosa entre as cortinas. Ainda faltam muitas horas, ela sabe. Mas não consegue evitar perder o olhar na rua, que agora já está escura, aguardando os faróis do Ford azul.

    No segundo andar da porta número nove, o homem continua no sofá. Já perdeu a conta à cerveja que a mulher lhe vai trazendo a cada grito. A cozinha envolta em vapor, porque o exaustor está avariado há três anos. E ainda tem de fazer as rabanadas.

    No quinto, está a família feliz. A árvore é a mais bonita, as crianças as mais bem comportadas, os presentes os mais valiosos. Os sorrisos espalham-se à medida que a família vai chegando. Quatro gerações.

    Um carro pára agora à minha frente, mas não é o Ford azul. Dois homens despedem-se com um beijo nos lábios. O condutor segue. O passageiro respira fundo e esconde a aliança no bolso do casaco, enquanto se dirige para casa dos pais, no prédio do lado.


    Nove da noite.

    Cai uma chuva miudinha que todos gostariam que fosse neve, menos eu, que ficaria com as folhas queimadas. Neve seria, contudo, muito mais romântico.
    A rapariga loura voltou a sorrir. O rapaz também, embora a raiva continue a jorrar dos seus olhos. O bebé passa de colo em colo, contagiando toda a gente com a sua inocência, como que a provar àqueles que eram contra a sua existência, o quão mágico é um pequeno ser. A encarnação da esperança. Todas as possibilidades pela frente.
    À janela do quarto esquerdo, a mulher volta a espreitar uma última vez antes de se sentar sozinha à mesa. Podia ter ido para a terra. É sempre a esta hora que se arrepende de não ter ido para a terra. Mas também, o que dizer àquela gente toda? Como suportar aquelas vidas provincianas, aquelas histórias sempre iguais, aquelas perguntas em tom de crítica?
    O homem continua a beber no segundo andar, embora tenha finalmente largado o sofá. Os filhos fingem que não se importam. Têm de sorrir pela mãe, que teve tanto trabalho. E ainda fez as rabanadas que sobram sempre, porque ninguém gosta de fritos.
    A família feliz está sorridente a partilhar uma luxuosa refeição. O pai das crianças não pára de mandar SMS por baixo da mesa. A mulher finge não perceber. É Natal. É suposto sorrir. A cunhada invejosa não tira os olhos da mulher do irmão, que está sempre tão bem vestida, tão bem arranjada, enquanto ela não tem dinheiro nem para ir fazer as mãos. A matriarca abre os olhos ao marido sempre que ele volta a encher o copo. «Não devias beber tanto. E depois quem é que leva o carro até à Igreja?» Os adolescentes jogam uns com os outros via telemóvel. A bisavó finge-se de surda e aproveita apenas o lado bom da coisa: ver a família toda reunida, quem sabe se pela última vez. Aproveita também para esconder mais uns figos secos no bolso do casaco, que saboreará quando ninguém estiver a ver.
    Na casa ao lado, o homem continua a gabar-se das suas viagens fantásticas e a inventar histórias da namorada parisiense que se está a tornar um caso sério. Talvez para o ano, se tudo correr bem, a convença a vir a Portugal. Os olhos da mãe brilham de alegria. Queria tanto ter um netinho.


    Meia noite.

    A hora mágica.
    A rapariga loura finge gostar do presente que o rapaz lhe deu. Não quer deitar-se zangada mais uma vez. Ele, no fundo, é bom rapaz. A sério que é.
    A mulher do quarto esquerdo dormita no sofá, enquanto as velas derretem no candelabro.
    No segundo andar, o homem já foi a cambalear até ao quarto, ignorando a abertura dos presentes. A mulher contém as lágrimas. Nem tudo é assim tão mau. Tem os filhos e os netos. Tem de continuar por eles. Amanhã logo se vê.
    A família feliz foi quase toda à Missa do Galo. Menos os adolescentes, que ficaram a tomar conta dos primos mais novos. Fumam charros à janela enquanto as crianças pulam no sofá, ansiosas pelos presentes e excitadas pelo excesso de açúcar.
    O homem do prédio ao lado distribui embrulhos caros que trouxe das suas viagens exóticas. Mas a mãe só queria um netinho. Ai que ainda vai morrer sem ter um netinho.


    Madrugada.

    Cai a neblina.
    A rapariga loura pede desculpa ao rapaz assim que entram no carro. Vamos começar de novo. Vamos ter outro bebé. Um bebé resolve tudo, com a sua doçura. Prometo que tudo vai ser diferente.
    O Ford Azul chega finalmente. A mulher dá pulinhos à janela. Sabe que não tem muito tempo. Ele disse à outra que ia só dar uma volta para esmoer o jantar. Mas aquela hora chega-lhe. A hora em que finge que são um casal. A hora em que finge ter uma família. Recebe mais uma jóia, quando só queria um pouco mais de amor. Mas não faz mal. Uma hora chega para sonhar.
    No segundo andar da porta número nove, a mulher limpa a casa em silêncio. Não pode acordar o marido, senão já sabe o que lhe acontece. Limpa a casa como se limpasse as tristezas da sua vida. São muitas e estão incrustadas como a gordura no exaustor que não funciona há três anos. Engole as lágrimas e as imagens do que poderia ter sido. Haja saúde. O resto a gente aguenta.
    A família feliz despede-se. Amanhã o cinismo continuará. Agora, cada elemento recolhe, maldizendo os outros durante o caminho até casa. Menos os adolescentes que dormem mais profundamente que as crianças. Uns anjinhos.
    O homem do prédio ao lado chama um táxi. Está desejoso de chegar a casa e rir com o companheiro das mentiras que tiveram de contar às respectivas famílias. Riem para disfarçar o desgosto de não poderem passar aquela noite juntos. Talvez para o ano seja diferente. Talvez para o ano tenham coragem.
    Uma a uma as luzes apagam-se e os motores dos carros deixam de se ouvir. Passou mais uma noite de Natal. Nenhum milagre trouxe a felicidade instantânea ou a resolução de todos os problemas sobre os quais ninguém quer falar. Daqui a umas horas tudo será como antes. Como sempre.
    Aguardo que os primeiros raios de sol aqueçam os meus ramos. Parece que já não vai chover.





    (texto originalmente publicado neste blog em 2011)
  • Só as tragédias nos relembram o verdadeiro valor da nossa existência. Só as tragédias nos trazem a angústia de sermos mortais. Passamos a vida tão ao de leve, tão preocupados com coisas mundanas, com as contas, com os horários, com o que os outros pensam, com o que é que se tira para o jantar, com aquele berbicacho que temos de resolver até ao dia seguinte, que nos esquecemos do que realmente importa. De quem realmente importa.
    Só as tragédias nos espicaçam durante uns dias. Nesse período, prometemos a nós próprios que vamos ser pessoas melhores, que vamos preocupar-nos mais com os outros, que vamos telefonar mais vezes aos pais, aos avós, aos amigos, que vamos cumprir aquela promessa há tanto tempo adiada. Prometemos tudo isto, para logo a seguir sermos novamente engolidos pelo quotidiano e atirados a um mundo que não está feito para contemplações. Um mundo que não nos dá tempo para pensar, que não nos dá tempo para tudo o que um dia gostaríamos de fazer ou dizer. E, quando mais de 90% da população luta para sobreviver, é quase um insulto pedir que sejamos mais contemplativos e olhemos para as pequenas coisas poéticas que a vida nos oferece. A poesia não paga as contas, não cumpre os horários, não faz o jantar.
    Mas então acontece uma tragédia. Um acidente, uma doença, uma injustiça. Um segundo que nos rouba o chão, que nos traz o desejo doloroso de ter tido mais um dia, mais um abraço, mais uma palavra sussurrada ao ouvido. Nessa altura, o que nos resta senão as tais coisas poéticas? Quando não há um corpo, quando não há vida, matéria, substância, persistem as recordações e a culpa por todos os minutos que perdemos a pensar nas contas, nos horários e nos jantares. Porque, por muitas voltas que a vida dê, por muitas obrigações que o mundo nos imponha, são as pessoas que nos dão sentido. Pessoas que merecem ouvir todos os dias o quanto são importantes na nossa vida. Todos os dias. Não apenas nos dias das grandes alegrias. Ou das grandes tragédias.





  • Dormir, ah dormir... Essa função básica do corpo humano que, como tudo na vida, só valorizamos quando não temos. Claro que qualquer pessoa sabe que, quando tem filhos, vai inevitavelmente dormir menos. Primeiro, porque o recém-nascido acorda de três em três horas, depois, porque deixou cair a chucha ou porque ficou doente ou porque teve pesadelos ou ainda porque fez xixi na cama. É normal, faz parte e não é segredo para ninguém, certo? Errado!
    Não é só nessas alturas que uma mãe (e muitas vezes um pai) não dorme. É constantemente, desde que a criança nasce até ao dia em que sai de casa. A verdade que ninguém nos conta é que, com a maternidade, nasce uma capacidade auditiva paranormal, que faz com que consigamos ouvir o nosso filho gemer mesmo a duas divisões de distância e com a porta do quarto fechada, e isso provoca graves perturbações no sono. Também nasce um sexto sentido, que nos acorda durante a noite para nos dizer que ele está todo destapado, está a começar a chocar alguma virose ou esqueceu-se de colocar o despertador para ir à visita de estudo cuja partida é às sete da manhã. E se nenhuma destas situações ocorrer e estivermos convencidas de que vamos dormir umas oito horinhas de seguida, os filhos arranjam maneira de, logo nesse raro dia, que geralmente ocorre durante o fim-de-semana, acordarem mais cedo.
    Assim, dormir uma noite realmente descansada começa a ser visto por uma mãe como um luxo arábico. Algo que um dia experimentámos, mas que agora não passa de uma ténue recordação. Como a recordação daquelas férias maravilhosas, por exemplo. Sabemos que elas aconteceram, temos fotografias que o atestam, lembramo-nos do sabor do Mojito, da música que estava a tocar, mas nada daquilo existe para lá da nossa memória. E é por isso que a maioria das mães (e muitos pais), quando conseguem recambiar a prole para casa dos avós, tios, amigos ou para um mero campo de férias, preferem dormir a qualquer outra actividade nocturna.
    Os amigos que não são pais ficam chocadíssimos com isto. Mas anda lá beber um copo, que estás sem os miúdos. Não sejas anti-social. Há quanto tempo não sais à noite? Também faz bem descontrair um bocado, dar um pezinho de dança... Esqueçam! Não há hesitação: entre ir para uma noitada com amigos e demorar três dias a recuperar (dois dos quais já na presença das nossas pequenas pestes hiperactivas) e poder dormir um sono retemperador pela primeira vez em meses, a escolha é óbvia. Aliás, já me aconteceu deixar o miúdo em casa dos avós para poder ir a um evento qualquer e, à última da hora, trocar a minissaia pelo pijama e enroscar-me no meu marido a ver um bom filme, seguido de 10 horinhas a dormir.
    E se for para ter uma noite de sexo escaldante? Também não. Acreditem: para uma mãe cansada, o prazer supremo é apenas e só uma cama fofinha num quarto silencioso, sem despertadores electrónicos ou humanos. Talvez amanhã, durante a sesta ou quando a criançada estiver naquela festa de anos. Até porque o sexo escaldante foi o que nos colocou neste estado, não foi?


    Bela Adormecida ©Filipa Silva
  • Português que se preze, deixa sempre os presentes para a última da hora. E depois entra em stress, no dia 23, ou mesmo no dia 24 de manhã, quando a família já está a telefonar a perguntar a que horas chega, que não se esqueça das couves, ou das rabanadas, ou das cadeiras dobráveis, que este ano o Chico traz a namorada.
    Pois desta vez não há desculpa. Têm aqui uma excelente lista com sugestões para todas as idades e todas as bolsas. E, ainda por cima, uma lista de produtos exclusivamente portugueses, que é para nos ajudarmos uns aos outros a sair desta interminável crise. A maioria deles são de pequenos negócios online, pelo que só têm mesmo de encomendar e ficar sentadinhos no sofá à espera do correio. Melhor que isto, só mesmo directamente com o Pai Natal, que eu sou apenas uma ajudante.
    • Uma clutch Baguera a partir de €110



    • Um bordado da Hardcore Fofo (esta tem bolinha!!! não ofereçam às avós!) - a partir de €10


    • Conservas (diz que está na moda!) à venda na típica Conserveira de Lisboa, mas também em muitos  supermercados e lojas gourmet por esse país fora. A partir de €2

    (para uma experiência ainda mais kitsch, visitem a loja de artesanato na minha avó, na Rua Miguel Bombarda nº94 Barreiro, onde encontram artesanato típico, galos de Barcelos, loiça das Caldas - bonecos também - canecas do Benfica, facas, utensílios de cozinha e tudo embrulhado no papel mais berrante com fitas e laços cada um de sua nação, tudo colocado em sacos de plástico sem qualquer tipo de branding, como antigamente!)


    • Discos e livros portugueses! Há tantas opções e tão boas (e não, não vou voltar a falar dos meus fantásticos livros!)... Vou apenas deixar um exemplo de um artista de quem gosto e que, tal como eu, anda a fazer tudo sozinho :)





         E e isto. Espero que tenham um Natal muito feliz e bem português. 

  • Descobri recentemente um projecto nacional realmente inspirador. Chama-se Maria Riding Company, nasceu oficialmente em 2012, e não é mais do que o restauro de motas clássicas. Mentira. É muito mais do que um restauro: é a transformação de uma mota clássica em algo totalmente novo, com um espírito vintage mas muito original. Por outras palavras, uma peça de arte.
    E como viajar também se faz fora da estrada, a Maria Riding Company criou aquelas que, para mim, são as pranchas mais bonitas do mundo. Aliás, são tão bonitas que estou mesmo a pensar abandonar o bodyboard só para poder ter uma.
    Depois ainda há os acessórios, as mochilas, as t-shirts, tudo com um look simplesmente fabuloso. Olhar para aquelas peças faz-nos pensar numa roadtrip de verão, pela costa leste dos Estados Unidos. Ou melhor ainda, pela nossa Costa Alentejana.
    Vale a pena espreitar o site, igualmente cuidado e aspiracional, e ficar a sonhar com a tal roadtrip, enquanto interiorizamos o espírito da marca:
    Extraordinary Rides for Unconventional People.










  • Nesta altura do ano é inevitável sentir o "Stress dos Presentes". Se, por um lado, ainda falta quase um mês para o Natal, por outro lado, não queremos deixar as compras para a última da hora. E se, por um lado, vamos cortar na lista e só oferecer uma lembrança às pessoas mais próximas, por outro lado, essas são sempre as mesmas pessoas a quem oferecemos presentes e, com os anos, as ideias começam a esgotar-se. Ora, para evitar este stress aos meus leitores, tenho uma excelente sugestão de presente:

    O meu novo livro «O Estranho Ano De Vanessa M.» autografado e com dedicatória.



    Mas há mais (porque eu ADORO o Natal e já estou a ser contagiada): os portes são GRÁTIS para qualquer ponto do país e ainda há um desconto de quantidade.

    1 livro €10 2 livros €18,5 3 livros €27




    Portes grátis para todo o país

    Para fazer a sua encomenda, basta enviar um email com a morada, número de exemplares pretendidos e nome da(s) pessoa(s) a quem dedicar o livro para filipafonsecasilva@gmail.com . De forma a garantir a entrega a tempo, só aceito encomendas até 15 de Dezembro.

    ATENÇÃO: Esta promoção NÃO é válida para o livro «Os 30 - nada é como sonhámos»

    Bom Natal e Boas Leituras!
  • Embora a gravidez seja uma das alturas mais bonitas na vida de uma mulher, confesso que não sou fã da coisa. Sim, há todas aquelas experiências maravilhosas como o facto incrível de estar a gerar uma vida, sentir o bebé a mexer, ouvir o seu coração quando vamos às consultas de obstetrícia ou passar à frente na fila do supermercado, mas sinceramente, tudo o resto é um rol de interdições, indisposições e preocupações. Ora é verificar se a salada está bem lavada, ora é acordar duas vezes por noite porque a bexiga não aguenta, ora é ter de dizer não àquele segundo copo de vinho. Tudo isto ao mesmo tempo que se lida com uma profunda desregulação hormonal que nos transforma em seis mulheres diferentes durante as mesmas 24 horas: de chorona a irascível, de impaciente a ansiosa, de meiga a intolerante. (Nota para os maridos que gostavam de ser poligâmicos: esta é a altura da vida em que vão ficar a saber porque é que a poligamia NÃO resulta. Uma mulher é suficiente para vos dar cabo da cabeça.)

    Se tudo isto já é complicado quando podemos chegar a casa e descansar no sofá (sim, porque uma grávida sente-se inevitavelmente mais cansada e não é por acaso que existem filas e lugares especiais para elas), o verdadeiro desafio começa quando já se tem um filho. O irmão mais velho do belíssimo ser que estamos cuidadosamente a gerar não se compadece com o nosso estado de graça. Aliás, na maior parte das vezes, parece uma daquelas pessoas que refilam se uma grávida lhes passa à frente. Não percebe porque é que não podemos dar colo, porque é que não rebolamos no chão, porque é que já não partilhamos a mesma colher. Além do mais, se tiver menos de quatro ou cinco anos, ainda é, ele próprio, um bebé: tem de ser vigiado, alimentado, vestido (com roupas que realmente combinem e sejam adequadas ao estado do tempo) e repreendido.

    E é então que uma mãe passa a viver os meses de gravidez entre o "Estou tão feliz, era mesmo isto que eu queria!" e o "O que é que me passou pela cabeça para engravidar outra vez?". É um sentimento perfeitamente natural. Porque estamos mais cansadas, mais preocupadas e, sobretudo, mais conscientes do que é ter um recém-nascido. Torna-se inevitável ficarmos assustadas com a gestão do tempo e da família quando o novo elemento chegar. Ainda estão muito frescas na memória as noites mal dormidas e a rapidez com que o tempo passa quando se está em casa com um ser que aparentemente não dá trabalho nenhum. Quando nasceu o meu primeiro filho, tive uma crise de exaustão ao fim de dez dias - dores no corpo, arrepios, falta de apetite - o que me faz entrar constantemente em pânico com a ideia de passar por tudo outra vez, e agora com uma criança de dois anos e pouco a querer constantemente a minha atenção. Mas depois, olho para o seu álbum de bebé, sinto outro pontapé nas entranhas e sorrio de plena felicidade. Que sorte poder passar por esta experiência outra vez! É um estado um bocado esquizofrénico. Ou se calhar é das hormonas...

  • Há umas semanas, a propósito das infames declarações do presidente da FIFA, escrevi uma carta ao Cristiano Ronaldo. Agora, que estamos a 90 minutos de garantir o apuramento para o Mundial, volto a publicá-la. Porque seria uma enorme injustiça, depois do que tem lutado e dado à Selecção e ao nosso país, este homem não jogar no Brasil. Força Ronaldo e força Portugal.


    Querido Ronaldo,

    (Desculpa a familiaridade no tratamento, mas gosto tanto de ti que não consigo dirigir-me à tua pessoa com um mero caro, muito menos um excelentíssimo, embora me mereças o maior respeito e consideração.)
    Como qualquer figura pública sabes bem que a fama traz amores e ódios. A fama, a riqueza, o sucesso e o talento. E quando alguém tem estas quatro coisas juntas, como é o teu caso, é difícil não ser alvo constante desses ódios e invejas. Só que, no teu caso, acredito que por cada ódio, venha ele das mais altas instâncias do futebol ou do mais baixo café de rua, há o dobro em amor. Sim, sei que, como eu, há milhões de pessoas que te adoram, que te admiram e que sabem que és um homem e um atleta fora de série. E sei que, felizmente, sabes disso.
    Para mim é um orgulho ver-te jogar, seja com que camisola for (com muita pena que não seja a do Benfica, mas enfim...). É um orgulho não só por seres português, mas sobretudo pelo difícil caminho que trilhaste até atingires os teus objectivos. Os odiosos e os invejosos gostam de falar do teu corte de cabelo, dos teus carros, das tuas namoradas, mas não falam dos anos que passaste longe da tua família, sozinho, nem dos dias em que ficaste a treinar depois dos outros se irem embora para te superares e tornares no atleta magnífico que és. Gostam de falar das tuas férias e das festas onde vais, mas não falam dos hospitais que visitas, dos miúdos que acarinhas e dos autógrafos que dás, mesmo quando a agenda é apertada e estás desejoso de ir para casa ter com o teu filho. Gostam de falar da roupa das tuas irmãs ou do novo corte de cabelo da tua mãe, mas não falam do amor e da segurança que elas te dão e que foi, decerto, fundamental para que nunca tenhas desistido dos teus sonhos e nunca te tenhas perdido como tantos outros atletas que ficam cegos pela fama e pelo dinheiro.
    E por falar em dinheiro, é teu de direito, conquistado literalmente com o teu suor, com o teu talento sobrenatural e ainda bem que podes proporcionar uma vida fantástica a todos de quem gostas. Ao contrário de tantos outros atletas, o dinheiro não te corrompeu, não te tirou a alegria de jogar à bola nem a constante batalha que travas contigo próprio para seres cada vez melhor. Uma batalha que tenho tido o privilégio de assistir ao longo dos últimos dez anos.
    Não sou do tempo do Pelé nem vi o "meu" Eusébio jogar. Era uma menina que brincava com as Barbies quando o Maradona e outros grandes talentos dos anos 80 davam cartas. Só comecei a ligar ao futebol quando vi uma reportagem sobre o Van Basten no início dos anos 90 e só fiquei verdadeiramente apaixonada quando fui ao Estádio da Luz pela primeira vez. Vi todos os grandes jogadores portugueses (e estrangeiros!) jogarem inúmeras vezes, ao vivo e a cores, desde então. Do meu maestro Rui Costa, ao aclamado Figo, entre tantos outros. Mas nunca vi nenhum jogador que se compare a ti. Tu tens aquela coisa que só os grandes têm. Aquela coisa que nos cola ao relvado, que nos faz gritar e nos enche o coração. Aquela coisa que te vai tornar lendário e imortal.
    Para mim, digam o que disserem, és o melhor do mundo. O melhor de sempre! Ah, e se vestisses a camisola do Benfica...

    Beijinhos,

    Filipa







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  • E por falar em mulheres portuguesas que levam o nome de Portugal pelo mundo, há uma que tem sido exímia a fazê-lo. Trata-se da artista Joana Vasconcelos. Desta vez foi uma das 15 mulheres convidadas para criar uma peça para a exposição que celebra o perfume Miss Dior.

    Cada artista tinha de criar uma peça tendo por base o frasco deste perfume, peças essas que estão em exposição desde ontem no Grand Palais em Paris. O resultado está nas imagens abaixo e para mim, como fã quer da Joana, quer da Dior, não podia ser mais fascinante. Parabéns Joana.





    Esboço do famoso frasco Miss Dior









    As 15 artistas convidadas









    Frascos e leds









    Pormenor da peça









    A artista e os técnicos









    A estrutura









    O resultado final













    Miss Dior Exhibition
    13 a 25 de Novembro 2013
    Grand Palais - Paris
    Entrada grátis (para quem tiver a sorte de passar pela capital francesa)


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  • Agora que, graças à notícia da minha entrada no Top 100 da Amazon, ganhei uma data de novos subscritores, que de outra forma dificilmente teriam chegado a este blog, acho que devo fazer um pequeno resumo do que vão encontrar por aqui. Para todos os que já eram seguidores, servirá este post para relembrar o que tem sido escrito e que possa ter passado despercebido. Espero que seja útil.

    O que esperar:

    1) uma boa dose de esquizofrenia: tanto falo de moda, como de futebol, de arte ou do estado da Nação. Não sou especialista em qualquer destas áreas, mas quando um assunto me desperta interesse, gosto de partilhá-lo e dar a minha opinião.






    2) um blog pessoal: sou totalmente responsável pelo que escrevo, mas devem ter em conta que são as minhas opiniões pessoais (nem sempre politicamente correctas), que partilho ao abrigo do direito constitucional à liberdade de expressão.






    3) um blog de uma mãe: é inevitável partilhar uma das partes mais importantes da minha vida, algo que faço na rubrica "Coisas que aprendi depois de ser mãe (e que ninguém nos conta)". Se não têm paciência para esta temática, não leiam os posts com este título. Embora sejam muito divertidos, mesmo para quem nunca viveu essa experiência (digo eu, mas sou suspeita).













    4) um blog onde a ficção se cruza com a realidade, mesmo nos textos mais literários.






    5) notícias sobre novas publicações: sim, quando tiver novos livros ou eventos que considere interessantes para os meus leitores, vou divulgá-los aqui.











    6) vários posts sobre as minhas preocupações humanitárias e ambientais, porque acredito que toda a gente faz a diferença e se, com algum dos meus textos, conseguir convencer nem que seja uma pessoa a abraçar uma certa causa, já fico muito feliz.












    O que não esperar:

    1) posts e actualizações diárias. Não vão encontrar fotografias do meu pequeno-almoço, nem relatos sobre as horas que passei no trânsito. Para isso utilizo as redes sociais. Aqui escrevo, em média, uma vez por semana, até porque sou apologista da grande máxima que é "se não tens o que dizer, fica calada". E também odeio estar sempre a receber newsletters.






    2) Passatempos e promoções por tudo e por nada. Isto não é o Groupon. Claro que não digo que, uma vez ou outra, não venha a fazer um passatempo, desde que o prémio seja algo de que eu realmente goste.






    3) Publicidade gratuita. Todas as marcas, designers, artistas e produtos de que falo no meu blog são coisas que eu admiro/consumo/gostava de ter. Adoro estar a par das novidades e se alguém quiser apresentar-me um novo produto, terei todo o gosto em ficar a conhecer, mas só darei destaque neste blog se acreditar nele. Já me basta a minha profissão de publicitária onde tenho de falar de coisas com as quais nem sempre me identifico.






    4) Um blog que agrada a gregos e troianos. Sei que vou escrever coisas que algumas pessoas vão adorar e outras vão odiar. É inevitável. Mas desde que escreva coisas que despertem a curiosidade e que façam os leitores dar o seu tempo por bem gasto (mesmo que não concordem com a minha opinião), sinto que o meu dever fica cumprido.






    Obrigada!
  • A versão inglesa do meu primeiro livro, “Os Trinta - Nada é como sonhámos”, que em inglês tem o título “Thirty Something – Nothing’s how we dreamed it would be”, entrou hoje no TOP 100 da categoria Woman's Fiction, ao lado autores como James Patterson, Danielle Steel e E.L.James. Simultaneamente atingiu a posição 630 da Amazon no rank geral de vendas, ou seja, incluindo todas as categorias de livros existentes naquela que é a maior loja online do mundo.

    Isto pode não parecer muito, mas se pensarmos que os melhores livros de autores rentáveis como Saramago ou José Rodrigues dos Santos estão em posições como 207 mil ou 334 mil respectivamente, a coisa ganha toda uma outra dimensão.

    Estou tão feliz com esta conquista, que se deveu a mais de um ano de trabalho árduo na promoção do livro no mercado internacional, que quero oferecer o meu novo livro "O Estranho Ano de Vanessa M." a todos os portugueses. Sim, TODOS os portugueses. Para tal, basta subscreverem este blog até dia 15 de Novembro. Quem o fizer receberá um email com um voucher para fazer o download da versão ebook do mesmo totalmente grátis.

    Porque é que vou oferecer o livro aos portugueses, quando a maior parte dos meus leitores são estrangeiros? Exactamente porque quero dar a conhecer o meu trabalho no meu próprio país, na minha própria língua, aquela em que escrevo, em que sonho e que será sempre a minha paixão.

    Espero que aproveitem esta pequena oferta e, quem já tem ou já leu o livro, pode sempre avisar os amigos.




    Versão inglesa de "Os 30 - nada é como sonhámos" no Top 100 da Amazon






    O livro que vou oferecer a todos os portugueses :)

  • Pois bem, chegou o dia do grande lançamento: o portal pelo qual todas as mães esperavam, onde várias mães bloggers e alguns pais com as mais variadas formações partilham as suas experiências e conhecimentos sobre tudo o que tenha a ver com a maravilhosa experiência que é gerar e criar uma criança. Da gravidez à pedagogia, da nutrição à psicologia, da fotografia à gestão do tempo e das tarefas domésticas, aqui há um pouco do tudo.

    Eu vou falar das coisas que aprendi depois de ser mãe e que ninguém nos conta, e vou seguir atentamente os "ensinamentos" das outras mães queridas, como por exemplo da Vera Ferraz que tem o blog "Hoje para o jantar...", onde partilha duas das suas grandes paixões: a fotografia e a culinária. Ainda não experimentei nenhuma das suas receitas, porque como vos digo, o portal está a ser lançado hoje, mas pelas fotografias fantásticas, já apontei várias receitas que vou fazer lá em casa. Vejam já se não são apetitosas?


    http://maequerida.limetree.pt/author/veraferraz/

    Gelatina com dinossauros!

    Bolo de abóbora, coco e noz

    pernas de frango com laranja e vinagre balsâmico

  • Querido Ronaldo,

    (Desculpa a familiaridade no tratamento, mas gosto tanto de ti que não consigo dirigir-me à tua pessoa com um mero caro, muito menos um excelentíssimo, embora me mereças o maior respeito e consideração.)
    Como qualquer figura pública sabes bem que a fama traz amores e ódios. A fama, a riqueza, o sucesso e o talento. E quando alguém tem estas quatro coisas juntas, como é o teu caso, é difícil não ser alvo constante desses ódios e invejas. Só que, no teu caso, acredito que por cada ódio, venha ele das mais altas instâncias do futebol ou do mais baixo café de rua, há o dobro em amor. Sim, sei que, como eu, há milhões de pessoas que te adoram, que te admiram e que sabem que és um homem e um atleta fora de série. E sei que, felizmente, sabes disso.
    Para mim é um orgulho ver-te jogar, seja com que camisola for (com muita pena que não seja a do Benfica, mas enfim...). É um orgulho não só por seres português, mas sobretudo pelo difícil caminho que trilhaste até atingires os teus objectivos. Os odiosos e os invejosos gostam de falar do teu corte de cabelo, dos teus carros, das tuas namoradas, mas não falam dos anos que passaste longe da tua família, sozinho, nem dos dias em que ficaste a treinar depois dos outros se irem embora para te superares e tornares no atleta magnífico que és. Gostam de falar das tuas férias e das festas onde vais, mas não falam dos hospitais que visitas, dos miúdos que acarinhas e dos autógrafos que dás, mesmo quando a agenda é apertada e estás desejoso de ir para casa ter com o teu filho. Gostam de falar da roupa das tuas irmãs ou do novo corte de cabelo da tua mãe, mas não falam do amor e da segurança que elas te dão e que foi, decerto, fundamental para que nunca tenhas desistido dos teus sonhos e nunca te tenhas perdido como tantos outros atletas que ficam cegos pela fama e pelo dinheiro.
    E por falar em dinheiro, é teu de direito, conquistado literalmente com o teu suor, com o teu talento sobrenatural e ainda bem que podes proporcionar uma vida fantástica a todos de quem gostas. Ao contrário de tantos outros atletas, o dinheiro não te corrompeu, não te tirou a alegria de jogar à bola nem a constante batalha que travas contigo próprio para seres cada vez melhor. Uma batalha que tenho tido o privilégio de assistir ao longo dos últimos dez anos.
    Não sou do tempo do Pelé nem vi o "meu" Eusébio jogar. Era uma menina que brincava com as Barbies quando o Maradona e outros grandes talentos dos anos 80 davam cartas. Só comecei a ligar ao futebol quando vi uma reportagem sobre o Van Basten no início dos anos 90 e só fiquei verdadeiramente apaixonada quando fui ao Estádio da Luz pela primeira vez. Vi todos os grandes jogadores portugueses (e estrangeiros!) jogarem inúmeras vezes, ao vivo e a cores, desde então. Do meu maestro Rui Costa, ao aclamado Figo, entre tantos outros. Mas nunca vi nenhum jogador que se compare a ti. Tu tens aquela coisa que só os grandes têm. Aquela coisa que nos cola ao relvado, que nos faz gritar e nos enche o coração. Aquela coisa que te vai tornar lendário e imortal.


    Para mim, digam o que disserem, és o melhor do mundo. O melhor de sempre! Ah, e se vestisses a camisola do Benfica...






    Beijinhos,






    Filipa








  • Há uns anos li uma frase do comediante Jerry Seinfeld que dizia algo como " ter uma criança de dois anos em casa é como usar um liquidificador sem tampa". Na altura achei a frase divertidíssima, mas só hoje a entendo na perfeição. É que, de facto, a não ser que tenhamos uma empregada interna, daquelas como nos filmes, que ficam lá a dormir e tudo, é humanamente impossível manter a casa limpa e arrumada quando se tem filhos menores de seis anos (que os outros já têm idade para limpar muito do que sujaram e arrumar os brinquedos antes de ir para a cama).

    Se acabámos de passar a esfregona no chão, eles entram pela divisão adentro e espezinham tudo; se acabámos de aspirar eles vão comer bolachas; se mudámos os lençóis de manhã, eles fazem chichi na cama à noite; se vestimos uma camisola nova, eles vêm dar-nos um abraço com as mãos pegajosas; se acabámos de pôr os Legos todos na caixa, eles despejam o cesto dos puzzles. Acreditem, é como uma daquelas leis de Murphy.

    Assim, uma mãe (e um pai, que hoje em dia já costumam ajudar nas tarefas domésticas), tem duas opções:

    1) virar Mãezilla e desatar aos gritos todas as noites, sobretudo por altura das refeições, passando o serão a limpar, a arrumar e a procurar a única peça de roupa que não tem bocados de comida incrustada, para poder vestir na reunião da manhã seguinte.

    2) desistir e interiorizar o ditado "se não os podes vencer, junta-te a eles", abraçando a desarrumação como um estado natural e repetindo mentalmente aquele famoso slogan do Skip "é bom sujar-se", nomeadamente quando os colegas repararem que temos um bocado de banana esmagada nas calças.

    Como a única satisfação que se pode retirar da primeira hipótese é poder contemplar a casa toda arrumadinha nos minutos que antecedem a nossa queda na cama, já que, na manhã seguinte, o caos recomeça em todo o seu esplendor por altura da primeira papa do dia e ninguém deixa de ser promovido por ter uma nódoa na camisa, optei pela segunda, para escândalo da minha família, que ainda por cima sofre de "arrumadismo" agudo. Bem vejo os seus olhares horrorizados quando entram na sala de estar, agora convertida em parque de diversões do pequeno T. Oferecem-se discretamente para ajudar, para varrer, para apanhar os brinquedos do chão, e eu agradeço e deixo-os sentirem-se úteis, embora saiba que, assim que eles saírem, o meu terrorista vai minar tudo em três tempos e eu vou fechar os olhos às dedadas nas portas, respirar fundo e perceber que, na verdade, prefiro estar ali com ele a espalhar cubos pelo chão, do que na cozinha agarrada aos instrumentos de limpeza. Não é fácil, vai contra o meu instinto, mas é a única maneira de sobreviver aos primeiros anos de uma criança.

    E se, de repente, aparecerem visitas ou tiver de chamar um médico ao domicílio e a parede ainda estiver salpicada de sopa (sim, há pratos que voam das cadeirinhas em dois segundos), em vez de baixar a cabeça envergonhada perguntando a mim própria "o que é que vão pensar de mim", vou sorrir e deixar que os meus olhos digam "desculpe a desarrumação, mas nós vivemos aqui".





  • E para isso, está a chegar um novo portal! Façam já o registo e preparem-se para um mundo de coisas que todas as mamãs (e papás) querem saber.

    A minha mãe é a mais babada

  • «Pois é minha querida. Aqui estou à espera da morte» suspirou, com o olhar preso na janela. A cortina branca a ondular lentamente, sugerindo silhuetas de árvores e um céu azul lá fora. «Não sei porque é que me prolongam o sofrimento. Já vivi o que tinha a viver. Uma vida boa, uma vida justa, a vida que eu escolhi. Talvez para alguns tenha sido uma vida miserável, humilde demais. Para aqueles que se deslumbram, que se deixam encadear pelo que está no cimo da montanha. Mas para mim, agora que olho para trás, foi o que quis. Não me arrependo. A minha montanha é sólida. Ou era, porque agora tudo é trémulo e frágil como os meus ossos. Até as minhas memórias.»


    Engulo em seco e tento sorrir. O que posso dizer? Mentir descaradamente e afirmar que vêm aí dias melhores? Que foi bom enquanto durou? Que ainda bem que viveu a vida que quis? O que é que isso interessa daqui a uns meses, quando até essa certeza se esfumar, por entre um manto de confusão e pesadelos? Como explicar a alguém que nos explicou o mundo, que nada fará sentido daqui para a frente? Que todos os rostos se vão desfigurar, mesmo os mais queridos? Aperto-lhe a mão com mais força e aceno com a cabeça. As palavras não se querem soltar. Sinto-me estúpida e vazia, como a empregada que arrasta o carrinho de chá pela casa afora, provocando um barulho ensurdecedor, aterrador, de loiça e metal. Um barulho que a estúpida ignora que possa estar a incomodar os habitantes da casa. E lá vai ela, até ao próximo quarto, a falar alto e a derramar pela tijoleira a sua falta de respeito. Como se aquelas pessoas não merecessem que se fechem as portas com cuidado, que se lavem as chávenas com delicadeza, que se fale ao telefone num tom de voz normal. É que eles morrem todos. Não estão ali muito tempo. Não vale a pena uma pessoa se afeiçoar. E a maioria são surdos ou senis. Daqui a um bocado, nem se vão lembrar. Não lhe pagam para mais. É domingo. Tem de limpar a casa, abrir a porta às visitas e servir os lanches até chegar a enfermeira da noite.


    «Tu é que me podias ajudar a sair daqui!» exclamou, com um olhar de clarividência. «A tua cunhada não me quis ajudar, mas tu vais ajudar-me, não vais? Prenderam-me aqui. Não querem que eu saia desta cama.»


    «Mas se calhar é porque não pode sair. Ainda não está curada da sua perna.»


    «Não... Eles têm medo que eu ande por aí, porque eu falo de noite e faço disparates a dormir. Tenho aquela doença, como é que se chama?»


    «Sonambulismo?»


    «Isso. A tua prima não sabia a palavra. Amanhã já lhe digo. Não sabia, mas parece que sou sonâmbula e prego-lhes sustos. Também pregava à minha mãe. Ela pensava que eu estava a dormir e eu estava a ler debaixo dos lençóis. Ralhava tanto comigo... Era analfabeta, mas disse-me logo que eu ia dar cabo da vista. E assim foi. Sempre usei estes óculos de fundo de garrafa e agora vou ter de ser operada aos olhos. Não vejo nada. Custa trezentos mil euros a operação. Ou três mil euros? Não sei. Agora já não posso ler. Eu que adoro ler. Não li o teu livro. Não consigo. O primeiro li. Três vezes. Primeiro leio o fim. Sempre fiz isso. Leio do fim para o princípio, porque não aguento de curiosidade. Depois leio uma segunda vez, do princípio para o fim, e às vezes uma terceira. Este não consegui ler, desculpa. Parece que estou a ver a minha mãe a entrar pelo quarto adentro e a perguntar o que é que eu estava a ler. Eram sempre coisas que não devia. Livros que a Renatinha roubava da biblioteca do pai, que era oficial da Marinha. Livros com linguagem muito ousada para a época. Mas eu dizia à minha mãe que eram livros da escola e escondia-os atrás do reposteiro. E ela, como era analfabeta, acreditava. Reposteiro, que palavras tão feia... Mas é assim que se diz, não é? Não havia livros na minha casa, mas eu punha a mão em qualquer um que encontrasse. Sempre tive uma avidez pela leitura, pelo conhecimento. Sempre fui muito curiosa. Também tinha um vizinho a quem pedia "O Século" emprestado. Era o Jorge. Um gordo, assim meio seboso e aparvalhado. A mãe dele, que era feirante, comprava "O Século" porque queria que ele fosse instruído, mas ele não queria saber disso para nada. Então, eu pedia-lhe para levar o jornal para casa e devorava-o até à manhã seguinte. Depois deixava-o lá direitinho, debaixo da porta. A mãe dele era feirante, mas sabia que o mais importante era estudar. Vê lá tu, naquela altura! E a Renatinha a levar-me os livros do pai, às escondidas. Encontrávamo-nos no ringue, mas eu não ia lá para dentro, porque tinha medo de levar com o disco na cabeça. Então sentava-me na cancela, a impedir o jogo. E elas ficavam todas furiosas e depois a Renatinha dizia que já não me emprestava mais livros... Estão todos mortos... Mas deixa-me olhar para ti. Estás tão bonita.»


    Dou uma volta como uma menina pequena a exibir o vestido novo. A menina pequena que era quando nos conhecemos, num tempo em que eu falava pelos cotovelos. Agora não sei o que dizer. Queria ser essa menina pequena outra vez. Talvez começasse a contar uma história cor-de-rosa, daquelas que só as meninas pequenas sabem contar. E conseguiria tirá-la daquela cama para darmos um passeio de mãos dadas. Depois, a professora faria um traço num papel com um marcador grosso, o qual eu teria de completar com os meus lápis de cor. "Desenho dirigido", a minha actividade preferida nas nossas aulas. As crianças têm muito mais jeito para lidar com os adultos e com situações constrangedoras em geral. Sabem sempre o que dizer. Nunca ficam com nós na garganta.


    «Quando sair daqui tenho de marcar uma consulta com um... com um... como é que se diz? Aquelas pessoas que tratam das coisas que as pessoas não sabem explicar?»


    «Psicólogo?»


    «Não, aqueles que tratam as pessoas que não percebem o que se passa na cabeça»


    «Psiquiatra?»


    «Isso, ainda ontem estive o dia todo a tentar dizer isso à tua nora, a Sa... como é que ela se chama? A tua nora? Não interessa. Psiquiatra. Gostava de falar com um e perguntar se é normal nuns momento estar aqui e, noutros, parece que já não estou, que não sou eu, não posso ser eu, não me lembro. Parece um pesadelo. Achas que ele me ajuda?»


    «Claro que sim. Mas é normal estar confusa.»


    «Eu estou aqui mas tenho uma casa, sabias? Não preciso de estar aqui. E a minha prima também tem uma casa... Estou cansada.»


    «Sim, acho melhor descansar. Posso voltar para outra visita?»


    «Podes. Gostei muito de te ver. Estás muito bonita.»


    «Então eu volto. Descanse agora.»


    Dou-lhe um beijo na testa e sorrio, enquanto choro por dentro. Para mim o dia ainda vai a meio. Tenho os meus amores à minha espera, o jantar para fazer, a semana de trabalho para preparar, uma vida inteira para construir. Para ela só há aquela janela, que em breve já nem o azul do céu permitirá vislumbrar, agora que o Outono chegou. Uma janela e mais um dia que nunca mais acaba. Mais um novelo de recordações que se misturam e misturam até se perder totalmente o fio à meada.


    Saio e reparo que o meu carro é o único no parque de estacionamento. É domingo. Está sol. Poucos são os que estão dispostos a deixar que uma nuvem negra lhes estrague o fim-de-semana. Ignoram a importância do calor humano, de um afago, de um sorriso. Ignoram que os minutos que nos pesam no coração, por espelharem a efemeridade da nossa existência, levam alguma leveza ao coração dos que ali vivem os resquícios da sua. De qualquer forma, eles são velhos. Nem sabem que dia é. Não se vão lembrar.








  • Ao longo dos anos, sobretudo dos últimos dois, tenho vindo a detectar vários padrões de mães, que podem ser mais ou menos agrupadas em oito tipos (ou estereótipos) distintos. Desde as mais fundamentalistas, às mais relaxadas, há mães para todos os gostos. Algumas têm um bocadinho de várias, formando misturas explosivas como a "Mãe Aleijada e Hipocondríaca" ou hilariantes como a "Mãe Hippie e Aluada". Mas o mais importante é que são todas mães, ou seja, seres superiores que geram vidas e transbordam amor. Cada uma à sua maneira.

    Mãe Aleijada - O termo pode parecer depreciativo e, na verdade, é mesmo, porque este é o tipo de mãe mais irritante. É a mãe que ao fim de uma semana de maternidade acha que já sabe tudo melhor que ninguém e não compreende porque é que existe qualquer outra actividade na vida que não seja ser Mãe. Está sempre a mandar palpites e a mostrar como os seus métodos são os mais correctos (têm de ser os mais correctos, porque ela já leu todos os livros que interessam e está a fazer tudo como manda a praxe!).

    Antes de ser mãe até era uma pessoa normal, mas depois o seu mundo mudou: agora só as crianças interessam e esse é o único tema sobre o qual gosta de falar- o trabalho é um mero local onde angaria audiência para os seus monólogos sobre puericultura; o marido é um escravo que serve para carregar os sacos, pagar as contas e acompanhá-la nos inúmeros eventos sociais, sempre relacionados com crianças; as amigas só continuam na sua vida se tiverem filhos, já que as outras são umas infelizes que não compreendem o que é ser mãe e não estão interessadas nas suas histórias sobre partos, amamentação e colégios. Por falar nisso, a sua maior preocupação, desde que a criança nasce, é exactamente o colégio que irá frequentar, porque os primeiros anos de educação são determinantes e era o que faltava o colégio dos filhos da Bernarda ter aulas de violino e o dela não. Pertence a tudo o que é grupo de mães, conhece todos os blogues e já experimentou todas as actividades relacionadas com crianças, desde que aprovadas pelas Associação Portuguesa de Pediatria. Escusado será dizer que é supercompetitiva, os filhos são sempre os melhores e tem horror às Mães Hippies, Descontraídas ou a quem quer que se atreva a dizer que há coisas mais interessantes na vida do que bebés.





    Mãe Aluada - Esta é uma mãe de coração na terra mas de cabeça no ar, já desde a gravidez. São comuns episódios como fumar porque se esqueceu de que estava grávida ou só fazer a mala da maternidade quando lhe rebentaram as águas. É a mãe que às duas da manhã repara que não há mais fraldas, deixa queimar a sopa, troca a hora dos antibióticos e precisa de lembretes no telemóvel para não se esquecer do aniversário da criança. Apesar de tudo é uma mãe carinhosa, brincalhona e presente... quando se lembra de ir buscar os filhos à escola. Aliás, desde cedo que os seus filhos sabem que, se precisarem de alguma coisa realmente importante, género fato para a festa de Natal, o melhor é pedirem à avó. O que a deixa um bocado frustrada porque normalmente é uma pessoa ligada às artes e adora fazer essas coisas.





    Mãe Descontraída - A mãe em que todas nós, eventualmente, nos tornamos - sobretudo a partir do terceiro filho. É uma a mãe rebelde, que lê os livros apenas para se certificar que não vai fazer nada daquilo, que nunca viu um esterilizador e que passa a chucha pela camisa quando esta cai ao chão. O seu lema é "no tempo das nossas mães não havia nada destas modernices e sobrevivemos". Não é grande fã da amamentação, deixa o bebé com a primeira pessoa que se oferecer e está-se a borrifar se as visitas lavam as mãos antes de pegarem no rebento. É a mãe que vemos na praia a sorrir enquanto os miúdos comem areia e que só liga ao pediatra quando a febre não baixa há mais de três dias. Quando os filhos crescem, esta mãe deixa-os fazer coisas impensáveis como trepar às árvores, brincar na rua, andar de metro ou escolher as suas próprias actividades extra-curriculares. São vistas como totalmente irresponsáveis por umas, e um exemplo a seguir por outras.





    Mãe Fashion - O sonho de uma mãe fashion era ser a Victoria Beckam ou a Angelina Jolie, cujas aparições públicas são sempre dignas da capa da Vogue e lançam a próxima tendência em acessórios para mães e crianças. É uma mãe que não deixa nada ao acaso: do biberão ao carrinho de passeio, tudo tem de ser de uma marca trendy ou de algum designer de nome impronunciável; o anúncio de nascimento é de uma originalidade de fazer corar o Stefan Sagmeister; as fotografias que publica (preferencialmente no Instagram) parecem tiradas numa sessão fotográfica profissional e o quarto da criança é, no mínimo, concebido por um designer de interiores (quando ela própria ou o marido não são os autores do projecto, já que, por norma, esta mãe tem profissões ligadas ao design, arquitectura ou moda). Qualquer mãe que ache que está muita gira naquele dia é imediatamente remetida para a sua insignificância quando se coloca ao lado de uma Mãe Fashion. Por isso, é um tipo de mãe a evitar quando estamos com a auto-estima em baixo.





    Mãe Hipocondríaca - Esta mãe é o pesadelo de qualquer pediatra. Aliás, já tinha sido o pesadelo do obstetra, que, por sua causa, mudou três vezes de número de telefone no espaço de nove meses. É a mãe que não pode ler nada, pois sente logo (ou vê nas suas crias) todos os sintomas. Mas o pior é que está sempre à procura de informação sobre doenças e epidemias. Ao primeiro espirro enrola a criança num cobertor polar, nunca lhe veste menos de três peças de roupa e tem termómetros em todas as divisões da casa para garantir uma temperatura adequada a cada momento. As visitas têm de se descalçar e desinfectar as mãos ainda à porta de casa e, se tiverem uma narina entupida, o melhor é nem aparecerem. Os seus melhores amigos são os esterilizadores, os purificadores de ar e as toalhitas desinfectantes, e o seu maior pesadelo o infantário. Vive em constante ansiedade e, quando os filhos já têm trinta anos, continua a perguntar se andam bem agasalhados e se tomaram as vitaminas.








    Mãe Hippie - Uma mãe totalmente Zen, adepta do parto natural, de preferência dentro de água, e da amamentação até à idade escolar. Os filhos só usam fraldas de pano, roupa em segunda mão e dormem com os pais até implorarem para ir para as suas próprias camas. Evitam a vacinação, a televisão e a inovação em geral. Por regra, são vegetarianas ou macrobióticas e os seus filhos só vão descobrir as maravilhas de um Happy Meal quando tiverem idade para irem ao centro comercial sozinhos. Ou se a educadora de infância for uma rebelde e lhes der a provar comida normal à revelia da Mãe, por já não aguentar o olhar triste das crianças a olhar para uma sandes de tofu, enquanto os outros meninos se lambuzam com fiambre e bolachas de chocolate.


    Carregam os seus filhos em panos até aos três anos, frequentam aulas de Baby Yoga e só praticam actividades ao ar livre e em comunhão com a Grande Mãe Natureza. O seu sonho é viver numa quinta, o mais longe possível da civilização ocidental, onde as crianças possam ser livres e brincar nuas pelos campos.






    Mãe Vai-com-as-outras - Esta é uma mãe extremamente insegura e que, por isso mesmo, está sempre à procura de conselhos e de aprovação alheia. Se ouve falar num novo biberão que previne as cólicas, deita logo os seus fora. Se ouve dizer que o melhor colégio é o X, trata logo de transferir os miúdos. Se o mãe do João fez a festa de anos no sítio Y e os meninos adoraram, ela também terá de fazer. Raramente segue o seu instinto e é altamente influenciável pelas Mães Aleijadas, que tudo sabem e tudo partilham, e pela sua própria mãe. Está sempre a comparar os seus filhos com os filhos dos outros, para se certificar de que está a fazer tudo como deve ser. Não é raro ter crises de choro à noite, enquanto se interroga se será uma boa mãe e se o seu rebento será feliz, quando bastava olhar para ele e para o seu ar saudável e bem-disposto para saber a resposta.






    Mãezilla - Sim, para os mais leigos em matéria de Banda Desenhada, é a conjugação da palavras Mãe com Godzilla, o destruidor monstro japonês. Este é o tipo de mãe que está sempre em stress, a gritar com os filhos ou a implementar regras típicas de uma academia militar. Tal como o monstro, não tem paciência para seres humanos em geral e crianças em particular, sobretudo a partir do momento em que começam a falar e a ter vontade própria. Normalmente a Mãezilla engravidou por obrigação, pressão social ou acidente e está desejosa de que os filhos cresçam depressa e lhe desamparem a loja para poder voltar a ter vida. Também tem os seus momentos de ternura, embora raros e em privado, não vá alguém reparar que tem um coração. É grande adepta dos colégios internos e dos acampamentos de férias.


    (Quase todas as mães têm o seu momento Mãezilla, mais cedo ou mais tarde.)